sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Lendas de Ponte de Lima

Lenda do Galgo Preto

Era uma vez um jovem e donairoso fidalgo, chamado D.Rui de Mendonça, muito estimado na Corte e em todos as poderosas famílias do Reino.El-Rei D.Manuel, o Venturoso, tinha-o por valido, sempre pronto a escutar-lhe a graça espirituosa dos ditos e a inteligência dos conceitos.E, quando o soberano decidiu ir de romagem ao túmulo do apóstolo Santiago, na galega Compostela, incluiu-o na comitiva, para disfrutar da sua presença gentil.O caminho escolhido por El-Rei para essa piedosa peregrinação atravessava Ponte de Lima, vila nobre e muito bela, debruçada sobre as águas preguiçosas do Lima.D. Manuel tinha, ali, alguns cavaleiros da sua Casa, senhores de vastas terras e antigos solares.Resolveu, por isso, aproveitar a hospitalidade de um deles para repousar, alguns dias, da fadiga da viagem.D.Rui seguiu-lhe o exemplo, visitando a parentela, pois, esta, espalhava-se, numerosa, pelos quatro cantos de Portugal.E toda ela lhe proporcionara festas, caçadas, passeios de barco pela limpidez serena do rio.Numa dessas festas, D.Rui travou conhecimento com D.Beatriz de Lima, descendente, pela mãe, de uma moira de Arzila, que recebera o nome de Madalena na pia baptismal.Por causa desta ascendência pagã, as velhas casas armoriadas da região recusavam-se a receber D.Beatriz com assídua intimidade, fazendo que ela, tão bonita e tão abastada, ainda permanecesse solteira.De mais a mais, murmurava-se que a mãe de Madalena era uma espécie de bruxa, dada a feitiços e encantamentos, e culpavam-na, até, de haver conseguido, mercê de mágicos filtros de amor, forçar o cavaleiro cristão a receber a filha por esposa, apesar das diferenças de raça e religião.Todavia, todos estes rumores desfavoráveis não impediram D.Rui de se enamorar de D.Beatriz, preso o coração pelos seus olhos profundos e cheios de sortilégio; pelos seus cabelos compridos, negros e sedosos, atributos sedutores das mulheres da Moirama.E ambos os jovens, nas escassa horas em que conviviam, não cessavam de trocar palavras ardentes e apaixonadas, bem como projectos de um futuro feliz.Terminando El-Rei o seu descanso, preparou-se para prosseguir o penoso caminho até Compostela. D.Rui teve que se lhe juntar ao séquito, embora com dorido pesar do seu coração enamorado. Com os olhos cintilantes de lágrimas, os dois jovens despediram-se, junto às margens enluaradas do Lima.Então, D.Beatriz pediu a D.Rui que, naquele último encontro, lhe jurasse amor eterno.- Juro!Confirmou D.Rui.- E és capaz de jurar por estas águas correntes?Perguntou D.Beatriz.- Juro! Amar-te-ei até que estas águas se esgotem para sempre.Tornou-lhe D.Rui, enquanto beijava, soluçante, a mão morena de D.Beatriz, com o peito já magoado de saudade.No dia seguinte à solenidade desta jura, D.Manuel abandonou Ponte de Lima com o brilho dos seus cavaleiros e equipagens. E ainda não havia decorrido um ano, soube-se, por todo o Reino, que D.Rui de Mendonça iria consorciar-se com uma dama da Corte, herdeira de um dos nomes mais distintos da nossa nobreza.Mas, a esta notícia, que tanta satisfação causou aos amigos e parentes do moço-fidalgo, logo outra se seguiu, espantosa e trágica.No dia da boda, D.Rui, ao entrar para a carruagem que o conduziria à igreja, levou, subitamente, a mão ao peito e, com um grito desesperado de dor, caiu morto!Logo no dia seguinte a esta morte misteriosa, que enlutou o Reino, começou a aparecer, espojando-se nas areias finas que ladeiam o Lima, um enorme galgo preto.De espaços a espaços, aquele animal desconhecido vai dessedentar-se nas águas plácidas do rio. E, se alguém procurar aproximar-se-lhe, o galgo preto corre à desfilada, ergue-se nos ares e esfuma-se para as bandas do mar.Afirma-se, na vila aterrorizada, que tal aparição é a alma do perjuro D.Rui de Mendonça, condenado, pela vingança de D.Beatriz, a passar duro castigo, até que o Lima cesse o seu percurso líquido e brando.Até para todo o sempre!

Lenda do Rio Lima

Era uma vez um rio.Nascera, sem pressa, entre espessas penhas, numa serra galega, e, sem pressa, foi descendo um vale ameno, bordado de salgueiros e veigas viridentes, avistado, débil pela distância, dos altos montes revestidos de pinheirais, e onde, nos cimos, se abrigavam o refúgio e a agressividade de velhos castros.Era azul e liso.Não tinha nome, ainda.O povo que lhe usava as águas, para a rega, a pesca e a sede, era rude, selvagem, mal sabendo talhar na pedra o machado da lenha; a faca lascada para dilacerar a rês, destinada ao fulgor das brasas; a ponta de lança para a defesa e o ataque contra a violência que lhe roubava o gado e lhe raptava a mulher.Pela calma do entardecer, a atingir de vermelho os céus do mar próximo, o pastor, recoberto de peles de feras, conduzia os rebanhos até às areias finas das margens, a beberem frescura na limpidez do rio, longa, longamente...Mas esta paz de paraíso não tardou a ser perturbada pelo passo duro e cadenciado do soldado estranho.A Roma imperial enviara as suas legiões aos campos agrestes da Ibérica, vencendo batalhas, edificando estradas lajeadas, as pontes, os aquedutos, as muralhas guerreiras, os templos para os deuses, os anfiteatros e as arenas para os prazeres da arte e do desporto.Elas invadiam, implicáveis, o bucolismo da paisagem doce, empunhando a agudeza da lança e o escudo de coiro lavrado, entre o arruído dos pesados carroções e o tropear febril dos cavalos.E, um dia, eis que o arreganho destas legiões chega junto á margem sul do rio de que vos falo, com seus pendões rubros, constelados de águias, sacudidos por uma brisa mansa,E estaca, rendido, deslumbrado!No arrebatamento da visão, toda a soldadesca excitada supõe estar diante daquele rio Lethes, o Rio do Esquecimento, um rio sem par de que lhe falavam as lendas e as narrativas do seu país.E do Esquecimento, porquê?Porque se dizia que quem ousasse atravessá-lo, enfeitiçado pela sua beleza, logo esqueceria a pátria, a família, o próprio nome.Tomado de pavor pelos avisos desta condenação, todo o exército se recusou a mergulhar, naquelas águas encantadas, a poeira das sandálias, obrigadas a calcar o vau da passagem que o levaria, sem perigo, á margem oposta.Em vão os comandantes lhe davam ordem de avançar.Em vão o chefe supremo, Décio Júnio Bruto, lhe ameaçou a desobediência com a prisão e a morte.Ninguém se movia dali, paralisado pela emoção e pelo medo.Mas Décio Júnio Bruto teve uma decisão feliz.Apeando-se do seu ginete, atravessou, lento, as águas feiticeiras, com o escudo a proteger-lhe a cabeça, a curta espada desembainhada na firmeza da mão.E, mal atingiu o areal da margem direita, vencendo o rumorejar do arvoredo, o gorjeio mavioso dos rouxinóis, começou a bradar pelos seus homens, hirtos, perfilados à sua frente, como estátuas estáticas, proferindo, de cada um deles, o nome exacto, sem revelar esforço de memória.Só desta forma convenceu os seus soldados que, afinal, o rio que lhes corria aos pés não era o Lethes do esquecimento, apesar da sua beleza, apesar do seu fascínio.Então, todo o exército atravessou, sem hesitar, as águas claras e brandas, e segui para novas paisagens, novos montes e vales, novos rios, embora nenhum deles tão deslumbrante.E aquele rio que, por um momento de paixão e de temor, fora baptizado de Lethes, continuou a correr, sem pressa, té ao desenlace da foz.O rio tem, hoje, o nome de Lima.E, tal como outrora, ei-lo que fascina, pela sua beleza, quem dele se abeira, lhe escuta o leve fluir, já ladeado, agora, pela riqueza e nobreza das igrejas e santuários milagreiros; pelos escuros solares armoriados e a brancura alegre dos casais; pelo bulício de antigas povoações com suas elegantes pontes arqueadas sobre barcos pesqueiros; e, por todo o horizonte, as torres, os pelourinhos, as cruzes...Rio do Esquecimento?Não.Rio da Lembrança.Lembrança viva destas terras amoráveis, por onde desliza e que parece beijar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Podiam resumir mais as lendas assim demoramos anos a ler.
o meu voto é não. Melhorem o site, porque assim perde-se a vontade de ler.

Anónimo disse...

Acho que este individuo tem razão!